sábado, 14 de agosto de 2010

INCONSTÂNCIAS E REPRESENTAÇÕES DO FEMININO NAS OBRAS DE HILDA HILST E FRIDA KAHLO


Verônica Daniel Kobs

          Elaine Showalter considera a arte das mulheres “um ‘discurso de duas vozes’ que personifica sempre as heranças social, literária e cultural tanto do silenciado quanto do dominante.” (SHOWALTER, 1994, p. 50). Para a autora, essa posição “inconstante”, volúvel e aparentemente contraditória não é mera característica da produção artística feminina; ela é inevitável e possibilita o engendramento de uma nova perspectiva da questão dos gêneros. A “primeira voz” é responsável pela retomada dos estereótipos, e, no momento seguinte, a “segunda voz” encarrega-se de subvertê-los, em uma clara crítica às qualidades e às funções que a sociedade patriarcal associa ao feminino e ao masculino.
          Frida Kahlo, em O ônibus, exemplifica bem esse processo. Em meio aos passageiros retratados na tela, três mulheres chamam a atenção. Seus perfis são totalmente diferentes e, da esquerda para a direita, relacionam-se às seguintes representações: dona de casa, mãe e socialite.  


O ônibus (1929), de Frida Kahlo

É inegável a conformidade das representações femininas de Frida Kahlo em relação ao gendramento. No entanto, a pintura separa o que a convenção costuma agregar em um mesmo perfil. Evidentemente, isso não quer dizer que a pintura expresse uma visão excludente e redutora do gênero feminino. A tela investe na contradição da expectativa ufanista de que a mulher deve, obrigatoriamente, desempenhar com perfeição todos os papéis que lhe são impostos pela sociedade. A separação proposta no quadro não deixa de celebrar a multiplicidade, mas acrescenta a importância da individualidade e da liberdade de ser, mas em medidas diferentes, e talvez até de deixar de desempenhar, por convicção, um dos papéis geralmente atribuídos ao gênero feminino. De modo sutil, reclama-se do preconceito e da falta de opção, já que a recusa a uma das características impostas constitui uma falta grave, para a visão androcêntrica.
Hilda Hilst, ao se debruçar sobre as mesmas questões, carrega no tom cômico e critica mais fortemente o gendramento. Em Fluxo-floema, há vários exemplos da paródia que a autora faz dos comportamentos atribuídos ao feminino e ao masculino. O primeiro é perceptível nos perfis dos protagonistas, Osmo e Mirtza:

Aí, eu falava, falava, e nas primeiras noites ela ouvia o que eu falava, depois ela queria fazer amor e eu fazia amor direitinho e tudo o mais, mas eu queria continuar falando depois. Depois de fazer amor. Aí, ela não me ouvia mais. Comecei a compreender que a Mirtza só me ouvia antes de fazer amor, e então pensei: essa mulher é uma vaca [...]. (HILST, 1970, p. 75)

Mas, meses depois, Mirtza viaja para a Índia e, quando volta, Osmo comenta: “Achei que a Mirtza voltou bem disposta, um pouco bem disposta demais, talvez, e o que me aborreceu seriamente: já não me ouvia nem antes nem depois.” (HILST, 1970, p. 75). Nesses fragmentos, a característica de falar demais, mais associada às mulheres, é dada ao homem. Dessa forma, os papéis se invertem e, no jogo da sedução, não é mais o homem, mas a mulher que ouve, apenas por obrigação, tudo o que o homem diz, a fim de alcançar sua tão esperada recompensa: o sexo. Osmo, porém, percebe o artifício de Mirtza, assim como se dá conta de que ela voltou mudada da viagem. No entanto, ele não sabe dizer por que ela não o ouve mais, “nem antes, nem depois”.
          Em outro texto do mesmo livro, Hilda Hilst desconstrói o mito da beleza feminina, ao apresentar o desabafo de uma personagem que revela o quanto era difícil estar sempre bonita, alegre e saudável, diante do parceiro. Em sua revolta, ela fala: “[...] que vontade enorme de soltar a barriga, [...] de dizer que eu tenho flebite (ah, é?) e que as minhas pernas doem quando eu faço o amor.” (HILST, 1970, p. 128). Esse trecho demonstra bem as obrigações impostas pelo gendramento, bem como evidencia o cansaço e a dificuldade de o personagem feminino obedecer a elas.

(Parte do trabalho a ser apresentado no IV Seminário de Estudos  Linguísticos e Literários da Fafipar, em Paranaguá (PR), no dia 17/08/10. O texto completo será publicado nos anais do evento.)
         

Um comentário:

  1. Gostei do trabalho do blog.

    *Entre o sonho e a realidade eu prefiro a realidade que me permita sonhar. http://jefhcardoso.blogspot.com

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