domingo, 6 de maio de 2012

DO PARATEXTO AO TEXTO: REVELANDO OS ENÍGMAS DO LIVRO OU “LETRAS E RISCOS IRREGULARES ABRINDO PARA A MARAVILHA”

Eunice de Morais


O Esplendor (Álvaro de Campos, in: Poemas. Heterônimo de Fernando Pessoa)


E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta,
Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha.

O que de sonho jaz nas encadernações vetustas,
Nas assinaturas complicadas (ou tão simples e esguias) dos velhos livros.

(Tinta remota e desbotada aqui presente para além da morte),
O que de negado à nossa vida quotidiana vem nas ilustrações,
O que certas gravuras de anúncios sem querer anunciam.

Tudo quanto sugere, ou exprime o que não exprime,
Tudo o que diz o que não diz,
E a alma sonha, diferente e distraída.

Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos! 

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A proposta desta discussão surgiu em meio a uma série de estudos que desenvolvi nos últimos anos, tendo como foco as relações entre a ficção e a história. O contato com o texto da pesquisadora espanhola Célia Fernández Prieto Historia y novela: poética de La novela histórica (2003) me fez voltar o olhar para alguns elementos que acompanham e complementam o texto para compor o que conhecemos hoje como livro. Estes elementos, denominados paratextos por Gérard Genette e “Franjas do texto” por Philippe Lejeune, seriam para Fernández Prieto fontes significativas para desvendar as diferenças e semelhanças, distanciamentos e aproximações entre o romance histórico romântico e o romance histórico pós-moderno.  Um estudo mais aprofundado sobre os paratextos, em especial nas obras literárias, no entanto, pode nos levar a uma série de apontamentos a respeito de sua função e de seu caráter revelador diante das obras que anunciam e/ou enunciam. Será através deles, estas “letras e riscos irregulares” que entraremos a desvendar o mundo maravilhoso dos livros. Assim como nos diz o poema de Álvaro de Campos,, heterônimo de Fernando Pessoa, queremos descobrir o que há de sonho nas encadernações vetustas, nas assinaturas complicadas ou simples dos velhos (e dos novos) livros. 
A definição de paratexto apresentada por Genette em seu Paratextos editoriais (2009 [1987]) nos remete a duas questões importantes, vejamos:

Um texto raramente se apresenta em estado nu, sem o reforço de e o acompanhamento de certo número de produções, verbais ou não, como um nome de autor, um título, um prefácio, ilustrações, que nunca sabemos se devemos ou não considerar parte dele, mas que em todo caso o cercam e prolongam exatamente para apresentá-lo. (Genette, 2009, p. 9).

A primeira questão nos leva a refletir sobre o passado e nos perguntar: isso sempre foi assim? O livro sempre foi livro tal como se apresenta hoje? Certamente que não. A história desse objeto, o livro, que se modifica em conformidade com a evolução tecnológica, econômica e cultural da humanidade segue acompanhada da história de sua recepção e da leitura. E me parece que essas histórias podem ser contadas através da observação dos paratextos. A segunda questão, essa que nos interessa mais especificamente nesta palestra, ao contrário, nos remete ao presente, pois a meu ver a importância e a quantidade destes elementos que reforçam e acompanham o texto ganharam força no sentido de definir e até de manipular o que quem e como se deve ler. Lembramos, segundo Genette, que:

Com efeito, essa franja, sempre carregando um comentário autoral, ou mais ou menos legitimada pelo autor, constitui entre o texto e o extratexto uma zona não apenas de transição, mas também de transação: lugar privilegiado de uma pragmática e de uma estratégia, de uma ação sobre o público, a serviço, bem ou mal compreendido e acabado, de uma melhor acolhida do texto e de uma leitura mais pertinente – mais pertinente, entenda-se, aos olhos do autor e de seus aliados.

Assim, se Genette apresenta dúvidas sobre se devemos ou não considerar o paratexto como parte do texto, gostaria eu de discutir essa dúvida quando temos diante de nós um romance histórico, para limitarmos o corpus de observação, produzida ou reeditada nas últimas duas ou três décadas. Penso aqui em romances como os biográficos de Ana Miranda, Ângela Dutra de Meneses em O português que nos pariu, João Ubaldo Ribeiro em Viva o povo Brasileiro, Doc Comparato, em A Guerra das imaginações, Domício Proença Filho, em Capitu, memórias póstumas,, José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta com o Terra Papagalli; penso ainda numa literatura infantil, em que a ilustração deve ser levada tão a sério quanto o texto literário, como temos em Chapeuzinho amarelo, de Chico Buarque ou o instigante e perturbador livro de Paulo Ventureli,  Admirável ovo novo. Para que não nos estendamos muito, apresentamos a leitura de alguns elementos paratextuais presentes em três obras: O Ladrão de raios (2009 2 edição, [2005]), Livro um da coleção Percy Jackson e os Olimpianos, de Rick Riordan e Dias e Dias (2002), de Ana Miranda. Estes romances, marcados foram escolhidos justamente pela diferença que apresentam tanto no plano estético da composição literária (gênero) como no plano intencional proposto pelo estilo de cada produção. A análise dos mesmos nos dará uma boa dimensão do quanto é importante quando não é essencial, hoje mais do que nunca, a leitura destes elementos para a criação de um horizonte de expectativa do leitor em relação à obra, para o estabelecimento de um pacto entre autor-texto-leitor, bem como para a compreensão e interpretação da obra.



terça-feira, 17 de abril de 2012

SHAKESPEARE EM QUESTÃO


Profa. Dra. Anna Stegh Camati



Participação no 40º Encontro Anual da Shakespeare American Association (SAA), em Boston (EUA).

De 5 a 7 de abril de 2012 participei do 40º Encontro Anual da Shakespeare American Association (SAA), em Boston (EUA) e, no dia 7 de abril, tomei parte dos debates no Seminário intitulado “Shakespeare in Public” (Shakespeare inserido na cultura pública), coordenado pela Profa. Dra. Denise Albanese, da George Mason University, com o trabalho intitulado “Brazilianizing Shakespeare for Popular Audiences: The Street Spectacle Sua Incelença, Ricardo III” (Abrasileiramento de Shakespeare para plateias populares:  o espetáculo de rua Sua Incelença, Ricardo III), em co-autoria com a Profa. Liana Leão da UFPR. 

 Imagem da cena de abertura do espetáculo Sua Incelença, Ricardo III


Com base em teorias contemporâneas que consideram a dramaturgia clássica como um espaço privilegiado de negociação cultural, nosso trabalho aborda a tropicalização do texto shakespeariano Ricardo III e a musicalização da cena da produção de teatro de rua do grupo potiguar Clowns de Shakespeare, intitulada Sua Incelença, RicardoIII.  É uma versão lúdica, irreverente e politizada, dirigida por Gabriel Villela que também foi responsável pelo êxito de Romeu e Julieta do Grupo Galpão, apresentado no Teatro Globe em Londres, em 2000. O trabalho discute a estética da cena que privilegia as linguagens paródicas e a mistura de elementos da arte erudita e cultura popular, e reflete sobre a aproximação entre a cultura medieval inglesa e o fenômeno do Cangaço no sertão nordestino. A trajetória sanguinária de Ricardo III, na Inglaterra medieval, é associada às matanças envolvendo coronéis, policiais e cangaceiros nos feudos do Brasil arcaico durante o século XIX e início do XX.  Os paralelos históricos de corrupção e oportunismo, que também remetem ao cenário político brasileiro da atualidade, provocaram risos subversivos na plateia reunida em espaço público. O espetáculo, assim, atingiu seus propósitos críticos ao incorporar temáticas e linguagens em sintonia com a realidade sócio-cultural brasileira, visto que a função da adaptação dos clássicos é promover uma reflexão sobre problemas e inquietações da contemporaneidade.

Global Shakespeares – Video & Performance Archive – Massachusetts Institute of Technology (MIT),  Boston (EUA).

O Global Shakespeares – Video & Performance Archive é um projeto colaborativo que permite acesso online, em âmbito global, a encenações shakespearianas, além de disponibilizar material de ensino e pesquisa elaborado por estudiosos e especialistas. Esse site, em constante expansão, abriga produções shakespearianas digitalizadas do Mundo Árabe, Ásia – Leste e Sudeste, Índia, Brasil, Europa, Reino Unido e Estados Unidos. No dia 9 de abril de 2012, na qualidade de co-editoras do arquivo digital do Brasil, as professoras Liana Leão, Anna Stegh Camati e Cristiane Busato Smith participaram de uma reunião,  para traçar objetivos e metas a serem cumpridas no ano de 2012, com a equipe que idealizou, implantou e gerencia o referido projeto nas dependências do MIT, dentre eles o Prof. Dr. Peter Donaldson, Diretor e Editor-chefe do Arquivo Global Shakespeares e do MIT Shakespeare Project; Suzana Lisanti, Senior Web Communications Stategist e Coordenadora do Projeto; e Belinda Yung, Project Manager e Diretora Técnica do Projeto. Em seguida, sob a  orientação de Suzana Lisanti e Belinda Yung, que generosamente dividiram seus conhecimentos e expertise conosco, foram realizados trabalhos de edição de clips de algumas cenas de montagens brasileiras, com legendas em inglês. A Profa. Liana Leão e eu editamos, em parceria, um clip da cena do balcão do espetáculo de rua Romeu e Julieta do Grupo Galpão que logo estará disponível no site Global Shakespeares (MIT). Acesse o arquivo digital brasileiro que, atualmente, conta com vinte e cinco produções, no seguinte endereço eletrônico: http://globalshakespeares.org/brazil

ABRIL de SHAKESPEARE VI, de 23 a 27 de abril em Curitiba.

Curitiba vem sendo apontada como uma das principais cidades de nosso país que cultivam a arte e a cultura. Após o sucesso de cinco edições do "ABRIL DE SHAKESPEARE" (2006, 2007, 2008, 2009 e 2010), tradicionalmente realizadas na semana do dia 23 de abril, data do aniversário de nascimento e morte de William Shakespeare, o evento, que passou a ser bienal a partir de 2010, já se tornou um marco no calendário cultural de nossa cidade. No corrente ano, as professoras  Anna Stegh Camati (UNIANDRADE),  Liana de Camargo Leão (UFPR) e  Célia Arns de Miranda (UFPR) que organizam e coordenam esse evento inter-institucional desde a sua incepção em 2006, realizarão o “ABRIL DE SHAKESPEARE VI”, de 23 a 27 de abril de 2012, objetivando, principalmente, divulgar e popularizar a obra de Shakespeare e introduzir o público participante no universo multifacetado do autor sob uma ótica contemporânea. Com entrada franca, é dirigido não apenas ao meio acadêmico, professores, alunos de graduação e pós-graduação, mas à comunidade curitibana como um todo e, neste ano de 2012, contará com o apoio e a colaboração das seguintes universidades, instituições culturais e outras: Universidade Federal do Paraná (UFPR), Centro Universitário Campos de Andrade (UNIANDRADE), Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Cultura Inglesa, Solar do Rosário, Casillo Advogados e Country Clube. A programação, que incluirá um mini-curso e palestras seguidas de debates, será desenvolvida por renomados especialistas shakespearianos, respeitados no Brasil e no exterior, oriundos de vários estados brasileiros.
Veja a programação completa do evento na página do Mestrado em Teoria Literária, no site da UNIANDRADE:  <www.uniandrade.br>

segunda-feira, 9 de abril de 2012

REGURGITANDO GARGÓLIOS



Verônica Daniel Kobs


Gelo seco. Névoa. Ruínas. Uma mulher (morta?). Sangue jorrando. Heróis impotentes.

É assim que Gerald Thomas e London Dry Opera Company apresentaram Gargólios. O espetáculo foi encenado na 21ª edição do Festival de Teatro de Curitiba, nos dias 1º e 2 de abril, no Guairinha. O texto reconstrói a peça Throats, para se adaptar a outra cultura e a outro tipo de público.

Work in progress.

Um divã. Vários “heróis”. Freud. Dramas pessoais. Uma mulher ensanguentada ao fundo. Estrondos. Toque de recolher. Cidade vazia.

              

A peça é uma cena-fragmento da tragédia norte-americana mundial de 11 de setembro de 2001. Novo século. O fim de uma era. A queda do símbolo do poder Ocidental. O fato de Nova Iorque ter sido o cenário do ataque terrorista nos diz muita coisa. Lá havia pessoas de todas as partes do mundo. Estávamos todos devidamente representados e experimentamos o horror da catástrofe, ainda que por amostragem.

Memória. Espetáculo-mosaico. Um estudo sociológico. Poder. Política. Religião. Comportamento humano. Sociedade contemporânea.

Várias línguas, com o predomínio do inglês, recriam o cosmopolitismo de Nova Iorque. No toque de um imenso sino invisível, a ambiguidade sinistra: o divino e o anúncio do fim dos tempos. Gerald Thomas é deus, padre e pastor... Além de autor e diretor, foi voluntário no resgate dos corpos das vítimas no episódio do World Trade Center e, no espetáculo, desenhou cenário, figurino, fez gravações em off, participou de pequenos diálogos com os atores e foi também espectador de sua própria história, no canto do palco, próximo à plateia, de onde também executava riffs de guitarra.

Um mordomo encharcado de sangue. Destruição. Heróis que não podem voar. Um parto na rua, em meio à multidão. Insensibilidade e pressa. Vinho: sangue de Cristo e dos homens.

Não existem mais super poderes. O inimigo do mundo é o próprio mundo. E a peça acaba em “festa”, para combinar com o paradoxo do mundo conectado à internet e desconectado de si mesmo. Boa comida invisível, sangue jorrando do teto, do corpo de um soldado abatido em combate, e vinho bem visível, transbordando nos copos, da boca dos personagens que golfavam sobre o palco... Vinho de boas safras, com datas de grandes guerras e revoluções do passado, do presente e do futuro. E Gerald Thomas, brincando de Deus, profetizou pequenos duelos constantes e grandes tragédias, no ano de 2030, ou 2032... 2025... Já não me lembro.

Incomunicabilidade. Ironia do nosso tempo. No lugar da fala, riffs de guitarra. Egoísmo. Indiferença. Impossibilidade. Nostalgia de outros (bons) tempos, em que sentíamos falta do futuro.

Só me lembro da sensação de peso sobre os ombros, durante toda a peça, de um horror prolongado, mesmo sabendo que a realidade tinha sido pior do que aquela encenação e de tudo o que eu já tinha vivido até aquele momento. Medo dos outros, medo da morte. Senti a morte (das grandes catástrofes, dos jornais, dos programas policiais) mais próxima, presente, de modo irremediável. A indiferença me ligava àqueles personagens desprezíveis, que representavam as pessoas desprezíveis da nossa vida real. Mesmo não querendo acreditar naquele retrato da sociedade contemporânea, eu não tinha como negar: É tudo verdade. Vivemos e morremos no fim dos tempos. “O mar não tá pra peixe.”

World in regress.

Imagens disponíveis em:
 
Assista à peça (em versão diferente daquela apresentada no Festival de Teatro de Curitiba) acessando o link: http://geraldthomas.net/h_gargolios.html