quinta-feira, 1 de setembro de 2011

30ª SEMANA LITERÁRIA - SESC/PR

DE 12 A 17 DE SETEMBRO - PRAÇA SANTOS ANDRADE - CURITIBA/PR

LITERATURA E SOCIEDADE
Já se foi o tempo em que se pensava que a literatura era capaz de reproduzir, ponto a ponto, como um espelho frio e neutro, as coisas do mundo real. A literatura não é um espelho. O século 20 nos mostrou que as relações entre a ficção e a realidade são intensas sim, mas complexas e nem um pouco lineares.

Vista hoje não como espelho passivo, mas como combustível poderoso de decifração e alargamento do real, a literatura passa a ter um novo papel social. Os escritores não são filósofos, ou cientistas, muito menos religiosos, ou pregadores. A literatura é um mundo específico, que se distingue com veemência da ciência, da filosofia e a religião. Sua potência na vida social é, portanto, singular. Podemos dizer mais: é insubstituível.

Escritores abrem janelas para novos mundos, descortinam realidades ocultas, ampliam a visão tradicional e costumeira que temos da sociedade. Nas mãos dos escritores, a vida social deixa de ser repetição e pragmatismo, afasta-se das normas e do conhecido, para se tornar invenção e, sobretudo, surpresa. A literatura nos leva a ver coisas que, antes dela, não conseguíamos ver. Ela nos faz considerar possibilidades, experimentar perspectivas e alimentar esperanças que, de outro modo, nos escapariam.

A literatura é, por excelência, o lugar da liberdade interior. Lugar do particular, e não do geral, do único, e não das séries e da repetição, ela se oferece, em nosso conturbado século 21, como um poderoso instrumento de interpretação e de desvendamento do real. Não para oferecer respostas prontas, porque se faz isso literatura não é, mas para gerar novas e atordoantes perguntas. Não para produzir soluções, mas novas inquietações. Não para reduzir a palavra a um simples instrumento técnico, mas para dela arrancar uma parte do futuro.

A Semana Literária – Feira do Livro Sesc tem como tema “Literatura e Sociedade”. A ideia é discutir o lugar que a literatura ocupa no mundo, as portas que ela pode nos abrir, o que dela podemos, ou não podemos, esperar. Qual é a função da literatura? No século 21, marcado pelas imagens, pela velocidade e pela web, qual é o seu papel? As mesas do evento não prometem respostas, mas uma reflexão acurada. Não prometem fórmulas, ou súmulas, mas o exercício libertador da interrogação.

José Castello - Curador

Programação Gratuita
Os participantes com 80% de presença nas mesas e palestras
receberão certificados de extensão universitária pela UFPR
 
Inscrições:
Sesc da Esquina
Rua Visconde do Rio Branco, 969
Tel. 3304-2222
 
Paço da Liberdade
 
Praça Generoso Marques, 189
Tel . 3234-4200
 
Sesc Centro
Rua José Loureiro, 578
Tel. 3233-7422
 
Sesc Portão
Rua João Bettega, 770
Tel. 3329-9999
 
Sesc Água Verde
Avenida República Argentina, 944
Tel. 3342-7577


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ser ou não ser humano, essa é a questão: Paisagem marítima, de Edward Albee

 Profa. Anna Stegh Camati
 
Produção do Lincoln Center no Booth Theatre (2005). Direção de Mark Lamos
 
Considerado o dramaturgo vivo mais importante dos EUA, um clássico da dramaturgia estadunidense ao lado de Eugene O’Neill, Tennessee Williams e Arthur Miller,  Edward Albee é detentor de três prêmios Pulitzer: Um equilíbrio delicado (A Delicate Balance – 1966), Paisagem marítima (Seascape – 1974) e Três mulheres altas (Three Tall Women – 1994). Suas experimentações dramatúrgicas surpreenderam as plateias e os críticos, mudando as feições do drama norte-americano.
Albee retrata o homem neurótico do século XX e XXI: seus medos, perdas, crueldade, isolamento e solidão. Lança um olhar extremamente crítico sobre o American way of life, fazendo a demolição dos mitos da cultura norte-americana como sendo armadilhas da ilusão e do auto-engano. Em Paisagem marítima, obra pouco conhecida no Brasil, o que começa parecendo estranho, revela-se, em seguida, assustadoramente familiar e quotidiano. A introdução dos lagartos humanóides faz parte das técnicas de estranhamento que o autor emprega para alcançar seus objetivos; é uma estratégia usada para atingir uma dimensão e compreensão mais profunda da realidade.
O teatro de Albee desencadeia uma reflexão aguda sobre a condição humana. A redução da humanidade que pode ser percebida em suas peças é um expediente dramatúrgico para provocar desconforto e alertar que é preciso empreender uma humanização do humano. Sua dramaturgia, chamada de teatro da inquietação, engaja mais o intelecto do que as emoções. Um dos recursos retóricos característicos deste teatro é a ironia, um modo de distanciamento intelectual que remove a certeza de que as palavras signifiquem apenas o que elas dizem. A ironia irrita porque nega nossas certezas ao desmascarar hipocrisias e mentiras, provocando vários graus de desconforto.
O texto discute os ganhos e as perdas do processo da evolução e a natureza das emoções e relacionamentos humanos. A narrativa é ambientada em uma praia deserta, e apenas quatro personagens se inserem nesta paisagem: o casal de humanos, Charlie e Nancy, e o casal de lagartos humanóides, Leslie e Sarah.  No primeiro ato, o casal de humanos, de meia idade, discute o que ainda lhes resta nesta vida. Nancy, acertadamente, diz “Nós mesmos – e um pouco de tempo”. Ela pretende viver intensamente a vida, aproveitar o tempo que lhe resta, mas Charlie quer apenas “lagartear”, sem fazer nada. No final do primeiro ato, dois enormes lagartos humanóides entram em cena. Eles evoluíram a tal ponto que sentem não pertencer mais ao elemento água e estão à procura de uma nova vida em terra firme.
No segundo ato, Albee se revela um observador implacável dos preconceitos, mesquinharias e hipocrisias do gênero humano, quando mostra o encontro entre os humanos e os lagartos humanóides. Nancy é mais aberta à troca de experiências e ideias, mas Charlie mostra-se extremamente arrogante e se refere aos lagartos como “animais irracionais”. Quando Leslie lhe pede uma explicação sobre o significado desses vocábulos, ele retruca “Animal irracional? É nem perceber que está vivo, muito menos... que vai morrer!” Esta definição se aplica como uma luva a ele próprio que age como um morto-vivo, com os sentidos embotados.
O casal humano, desestruturado no início da peça, vai se humanizando nesse contato com os lagartos, redescobrindo o que vem a ser a emoção através da reação de Sarah que revela uma enorme capacidade de sentir, quando confrontada com a hipótese da perda de Leslie. Albee parece aludir às especulações filosóficas dos vitalistas, dentre eles Henri Bergson, que argumenta que no processo de evolução da humanidade, com a crescente mecanização e automatização, o homem perdeu muito de sua sensibilidade.
O contato com os humanos quase convence o casal de lagartos a voltar para seu habitat aquático, mas eles resolvem ficar ao receberem a informação de que a evolução é um processo inevitável. Apesar de não responder diretamente à pergunta se a vida vale a pena ser vivida, Albee nos oferece indícios de que devemos vivê-la da maneira mais plena possível, uma vez que não nos resta alternativa.
Em Paisagem marítima, o questionamento de Albee sobre a questão do ser ou não ser humano nos remete ao poema “Os homens ocos” (1925) de T. S. Eliot, no qual o poeta põe a nu o isolamento e a incomunicabilidade dos seres humanos no mundo contemporâneo, os mortos-vivos que atravessam a vida sem fazer contato com os seus semelhantes, os homens empalhados com os sentidos embotados. Albee lamenta a perda da energia vital: uma vida de não envolvimento, sem entusiasmo ou paixão se torna o caminho mais curto para a desumanização.