quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ser ou não ser humano, essa é a questão: Paisagem marítima, de Edward Albee

 Profa. Anna Stegh Camati
 
Produção do Lincoln Center no Booth Theatre (2005). Direção de Mark Lamos
 
Considerado o dramaturgo vivo mais importante dos EUA, um clássico da dramaturgia estadunidense ao lado de Eugene O’Neill, Tennessee Williams e Arthur Miller,  Edward Albee é detentor de três prêmios Pulitzer: Um equilíbrio delicado (A Delicate Balance – 1966), Paisagem marítima (Seascape – 1974) e Três mulheres altas (Three Tall Women – 1994). Suas experimentações dramatúrgicas surpreenderam as plateias e os críticos, mudando as feições do drama norte-americano.
Albee retrata o homem neurótico do século XX e XXI: seus medos, perdas, crueldade, isolamento e solidão. Lança um olhar extremamente crítico sobre o American way of life, fazendo a demolição dos mitos da cultura norte-americana como sendo armadilhas da ilusão e do auto-engano. Em Paisagem marítima, obra pouco conhecida no Brasil, o que começa parecendo estranho, revela-se, em seguida, assustadoramente familiar e quotidiano. A introdução dos lagartos humanóides faz parte das técnicas de estranhamento que o autor emprega para alcançar seus objetivos; é uma estratégia usada para atingir uma dimensão e compreensão mais profunda da realidade.
O teatro de Albee desencadeia uma reflexão aguda sobre a condição humana. A redução da humanidade que pode ser percebida em suas peças é um expediente dramatúrgico para provocar desconforto e alertar que é preciso empreender uma humanização do humano. Sua dramaturgia, chamada de teatro da inquietação, engaja mais o intelecto do que as emoções. Um dos recursos retóricos característicos deste teatro é a ironia, um modo de distanciamento intelectual que remove a certeza de que as palavras signifiquem apenas o que elas dizem. A ironia irrita porque nega nossas certezas ao desmascarar hipocrisias e mentiras, provocando vários graus de desconforto.
O texto discute os ganhos e as perdas do processo da evolução e a natureza das emoções e relacionamentos humanos. A narrativa é ambientada em uma praia deserta, e apenas quatro personagens se inserem nesta paisagem: o casal de humanos, Charlie e Nancy, e o casal de lagartos humanóides, Leslie e Sarah.  No primeiro ato, o casal de humanos, de meia idade, discute o que ainda lhes resta nesta vida. Nancy, acertadamente, diz “Nós mesmos – e um pouco de tempo”. Ela pretende viver intensamente a vida, aproveitar o tempo que lhe resta, mas Charlie quer apenas “lagartear”, sem fazer nada. No final do primeiro ato, dois enormes lagartos humanóides entram em cena. Eles evoluíram a tal ponto que sentem não pertencer mais ao elemento água e estão à procura de uma nova vida em terra firme.
No segundo ato, Albee se revela um observador implacável dos preconceitos, mesquinharias e hipocrisias do gênero humano, quando mostra o encontro entre os humanos e os lagartos humanóides. Nancy é mais aberta à troca de experiências e ideias, mas Charlie mostra-se extremamente arrogante e se refere aos lagartos como “animais irracionais”. Quando Leslie lhe pede uma explicação sobre o significado desses vocábulos, ele retruca “Animal irracional? É nem perceber que está vivo, muito menos... que vai morrer!” Esta definição se aplica como uma luva a ele próprio que age como um morto-vivo, com os sentidos embotados.
O casal humano, desestruturado no início da peça, vai se humanizando nesse contato com os lagartos, redescobrindo o que vem a ser a emoção através da reação de Sarah que revela uma enorme capacidade de sentir, quando confrontada com a hipótese da perda de Leslie. Albee parece aludir às especulações filosóficas dos vitalistas, dentre eles Henri Bergson, que argumenta que no processo de evolução da humanidade, com a crescente mecanização e automatização, o homem perdeu muito de sua sensibilidade.
O contato com os humanos quase convence o casal de lagartos a voltar para seu habitat aquático, mas eles resolvem ficar ao receberem a informação de que a evolução é um processo inevitável. Apesar de não responder diretamente à pergunta se a vida vale a pena ser vivida, Albee nos oferece indícios de que devemos vivê-la da maneira mais plena possível, uma vez que não nos resta alternativa.
Em Paisagem marítima, o questionamento de Albee sobre a questão do ser ou não ser humano nos remete ao poema “Os homens ocos” (1925) de T. S. Eliot, no qual o poeta põe a nu o isolamento e a incomunicabilidade dos seres humanos no mundo contemporâneo, os mortos-vivos que atravessam a vida sem fazer contato com os seus semelhantes, os homens empalhados com os sentidos embotados. Albee lamenta a perda da energia vital: uma vida de não envolvimento, sem entusiasmo ou paixão se torna o caminho mais curto para a desumanização.
 

sábado, 2 de julho de 2011

Um mistério no trem-fantasma e O mistério dos sinais da passagem dEle pela cidade de Curitiba


Prof. Dra. Verônica Daniel Kobs
              Nesses dois contos de Valêncio Xavier, a utilização de notícias de jornal não é o único recurso a reforçar a verossimilhança do texto literário. Outra estratégia que provoca o efeito de realidade sobre o leitor é o uso de Curitiba, um espaço real, como cenário. Muitos leitores, com base nesses elementos, transferem a realidade dos referentes para a história, chegando, às vezes, a desconsiderarem a natureza ficcional, inerente ao texto literário.
              No conto Um mistério no trem-fantasma, no melhor estilo kitsch, os personagens se conhecem no Passeio Público, um dos cartões postais da cidade, e terminam a tarde no extinto parque de diversões Alvorada. Essa especificação dos espaços aumenta ainda mais a impressão de que a história é verídica. Como o autor opta, desde o início da história, pela dissolução da fronteira entre realidade e ficção, ele, de fato, não poupa esforços para confundir o leitor. O narrador cita dia, mês e ano do desaparecimento da protagonista, Jucélia Ramos, cujo retrato falado também é reproduzido, no conto. O sumiço da moça ocorreu no dia 19 de julho de 1969, mesma data da chegada do homem à Lua. Aliás, esse detalhe também ajuda a convencer o leitor de que a história realmente aconteceu.
              E o conto vai se fazendo a partir dos depoimentos de testemunhas, do parecer do delegado do caso (o autor, inclusive, estiliza o discurso policial, para tornar o texto mais verossímil) e das hipóteses formuladas pelos diferentes jornais da época. As versões, bastante divergentes, vão desde a abdução da jovem por extraterrestres, fuga espontânea e premeditada, até a associação do desaparecimento a mais uma ação do MR-8 no Paraná.
              Apesar de, nesse conto, a função do jornal ser reduzida, se comparada ao papel do texto jornalístico, na novela O mez da grippe, os inúmeros elementos aqui citados suprem essa ausência e pode-se afirmar que até chegam a alcançar maior efeito, no que diz respeito à verossimilhança do texto. Recurso também poderoso é a ilustração do texto, que não compreende desenhos simplesmente, mas fotos. A intenção é tornar a protagonista mais real ao olhar do leitor. Jucélia Ramos (que tem até sobrenome e cujo rosto aparece estampado em um retrato falado) não é tratada como personagem construída. Ela ganha status de pessoa real, curitibana e frequentadora habitual dos espaços de lazer da cidade, assim como as pessoas mostradas nas fotos, nos carrinhos do trem-fantasma.
              Embora utilize menos recursos para conferir realidade à história, o conto O mistério dos sinais da passagem dEle pela cidade de Curitiba também utiliza a fotografia e trechos de jornais para confundir o leitor. A notícia do assassinato de uma prostituta por um engraxate, que usou uma estaca de madeira e, provavelmente, tenha sido possuído pelo demônio, na hora do crime, parece mais uma lenda urbana.
              Entretanto, dados precisos são informados. O assassinato aconteceu em 29 de maio de 1986 e, de acordo com o narrador, chamou a atenção da imprensa: “O revoltante crime teve muita repercussão na época e a Folha de Curitiba publicou fotos do cadáver na primeira página, o que provocou protestos generalizados. A Tribuna do Paraná, do doutor Paulo Pimentel, também publicou as fotos na primeira página (…).” (XAVIER, 2002, p. 319). No trecho citado, é de suma importância o tom de testemunho da narração. Esse recurso é similar ao usado em O mez da grippe, nos trechos que registram o depoimento de Dona Lúcia. No entanto, é fundamental perceber que, na novela, o que a personagem afirma contradiz as fontes oficiais e, no conto, o narrador respalda seu testemunho no que os jornais da época noticiaram. Não importa se o crime ocorreu ou não ou se foi, de fato, publicado nos jornais citados pelo narrador. O que é primordial é o fato de o narrador sustentar seu testemunho, citando suas fontes.   
              Seguindo o mesmo padrão do conto analisado anteriormente, O mistério dos sinais da passagem dEle pela cidade de Curitiba traz uma foto que mostra fezes e pegadas humanas em um terreno baldio, palitos de fósforo e pedaços de uma edição do jornal A Tribuna, mais precisamente a publicação de “segunda-feira 2 de novembro de 1987 Ano XXXII n 9.062/24 páginas” (XAVIER, 2002, p. 320). Esse detalhamento, na apresentação do jornal que aparece na foto, cria a impressão de realidade, além de brincar com a (im)possibilidade das coisas. A história considera possível que o assassino da prostituta e as pegadas no terreno baldio sejam obras do demônio. É óbvio que uma narrativa fantasiosa como essa não ganharia espaço nos jornais. Porém, o pedaço de jornal mostrado na foto serve de prova incontestável ao que antes parecia fruto de uma imaginação fértil.
              Nesse conto, Valêncio Xavier mostra-se ardiloso e eficaz, ao comprovar, mais uma vez, que o discurso jornalístico não investe apenas na construção narrativa (e, portanto, não factual); ele também é capaz de fabricar notícias e, ao fazer isso, demonstra a frágil e relativa separação entre o fato e a fantasia. 

(Excerto do artigo A literatura, o jornal e as verdades dos fatos, escrito pela Prof. Dra. Verônica Daniel Kobs e publicado na revista Miscelânea, Assis, vol. 8, jul.-dez. 2010)